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Quando um doente expõe a sua enfermidade (às vezes atira-nos com ela com tanta força que faz vento), espera habitualmente que o oiçam, que lhe devolvam um diagnóstico seguro e, sempre, uma cura. Na generalidade (estou gloriosamente orçamentista), o paciente quer ver valorizada a sua queixa, não aceitando maleita grave com risco de vida e desejando ainda menos ter uma coisinha insignificante. Parece-me, partindo das minhas impressões, que o pior que se pode dizer a uma pessoa com queixas é que ela não é real proprietária de uma moléstia séria.
Vejamos agora a coisa do lado do médico. Sempre que nos assombram com um sintoma/sinal abrem-se dentro do nosso cérebro um sem número de chavetas, com vinte mil itens cada uma, que nos ajudam a perceber (desejando ardentemente que não -devo confessar) se a pessoa que nos pede ajuda está ou não para quinar ou se, estando livre da morte, não incorre em risco de ficar incapaz ou severamente limitada na sua vida. Será, por isso, normal que quando pedimos especificidade ao nosso paciente pareça que o estamos a desvalorizar.
Dou um exemplo: se uma mãe diz “vomita tudo o que come”, eu pergunto sempre “é mesmo tudo ou “, como acontece a maioria das vezes, “vomita muito e pelo meio vai tolerando alguma coisa”; nesta pequena diferença reside o risco real de desidratação do pequeno, a necessidade de ir a um hospital e, até, de ser internado. Não imagina o pobre paciente a quantidade de cenários trágicos que passa pela cabeça de um médico quando confrontado com um sintoma. Uma vez percorrido o caminho labiríntico das chavetas, o médico respira de alívio sempre que exclui uma fatalidade.
Assim sendo, é natural que o clínico, possuído por uma invulgar tranquilidade, atinja uma qualquer dimensão transcendental que o torna menos contido e permite que saiam de sua boca alarvidades como “isso é normal” ou “isso não é nada”. Queríamos seguramente ter dito: “ ai que bom querido doente, ainda não é desta que quinas ou te começa a correr mal a vida, cá beijinho pequenino”. O doente acaba por ouvir: “mariquinhas pé-de-salsa, queixosinho protestante, arranja uma queixa de jeito que com essa não vais a lado nenhum”, ficando muito ofendido. O médico procura a salvação e o doente uma justificação para todo o mal que sente. Parece que o caminho se faz em sentido oposto quando, de facto, procuram ambos o mesmo: o aniquilamento do inimigo."
- da Paracuca
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