Sou tão céptica.
Mentira.
Tornei-me céptica. Demasiado céptica. Tanto que já não acredito em coisas simples. Simples, banais, o que quer que lhes queiram chamar. Amor, amizades verdadeiras, motivação, sonhos. Eu acreditava tanto nisso tudo. Apregoava aos sete ventos que tinha sonhos e desejos e vontades e que queria, acima de tudo, amar e ser amada e ser feliz. Se ainda o quero? Parva seria se não o quisesse. Se acredito nisso? Não.
Tento impedir-me de esboçar sorrisos escarninhos quando vejo casais felizes ou pessoas que relatam tudo aquilo que sonham fazer. Tento impedir-me de gritar-lhes "what a load of crap!". Cá dentro, dentro desta cabeça disfuncional, uma voz berra que são eles os parvos, que seria melhor pararem de idealizar porque, um dia, tudo vai acabar. Relacionamentos acabam, amizades acabam, empregos desaparecem.
Ilusões, ilusões, ilusões.
Mas, porra! E então? Qual é o problema de ter sonhos?
Tento impedir-me de gozar com os idealistas porque eles não o merecem. Porque também eu gostava de ser assim. Gostava de voltar a ser assim. Gostava, por exemplo, de deixar de acreditar que as pessoas são sempre um desapontamento.
Tornei-me céptica e agora não sei como voltar atrás.
Mas quero voltar a acreditar - era muito mais 'leve' nessa altura.
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